quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Pintando o sete



Ontem (contexto: última semana de aula do ano. Festa de encerramento do ano realizada na semana anterior e despedida do ciclo da educação infantil), meu filho de 6 anos chegou com marcas de uma pintura no rosto que se apagava. Recebi meu filho com elogios e, de forma entusiasmada, perguntei sobre a pintura: "Hoje vocês ganharam uma pintura no rosto? Quem a fez?" (A princípio, imaginei que a pintura foi indicada pela professora). Mas, de repente, uma situação que poderia ser simples e lúdica se transformou em um momento de constrangimento para o "meu pequeno" que fez semblante de assustado e recuou ao invés de vir em minha direção. "Eu pintei o meu rosto de cachorrinho, mas a tia "fulana" não gostou, não! Ela falou: limpa isso agora!!!" Ele repetia a cena preocupado, narrando a forma autoritária da professora, e assustado, como se não estivesse feliz com aquelas marcas que denunciavam para mim a sua travessura.

Não sei se é porque é final de ano... Mas, me emocionei vendo aquela criança reprimida em seu processo criativo... em uma atitude tão natural, tão própria de uma criança: pintar o rosto. (com hidrocor lavável da Faber Castell - a escola estava devolvendo... por sinal, parece intacto. Imagino, inclusive, que deva ser a primeira vez que ele pegou neste material que fora pedido na lista do princípio do ano. Não vimos nenhum trabalho dele que demonstre que os hidrocores foram utilizados). Talvez, isso venha até esclarecer o entusiasmo dele em receber aquele lindo estojo, tão colorido!!! Foi logo querendo contato com tudo... na própria pele... Mas, era apenas prá ele guardar na pasta e levar para casa.

Essa cena está me interrogando tanto... Achei desproporcional...

Fala-se tanto em inteligência emocional...

Ai! Como ainda quero sonhar e encontrar um tempo em que as propostas pedagógicas e os profissionais de educação respeitem, genuinamente, a infância... Uma pedagogia infantil que se desinstale de sua zona de conforto e vá em busca de um processo que promova mais que desestimule, que encoraja mais que desencoraja... que fortaleça os potenciais infantis, auxiliando-nos no caminho de uma vida saudável e feliz...

A professora limpou o rosto do meu filho com álcool...

Quanta assepsia, meu Deus!

Respirei fundo e teci conselhos ao "meu pequeno" sobre conteúdos como respeito à autoridade, aos cuidadores, etc... Expliquei que a professora não havia proposto a atividade e que ela pode ter se sentido desafiada, pois, em uma sala de aula (tradicionalmente) o aluno não pode ter este tipo de autonomia, nem em relação a si mesmo. Ele não deveria ficar com o rosto pintado, pois poderia incentivar a todos os colegas a copiá-lo, etc e tal... Não poderia deixar ele se sentir livre para desrespeitar uma professora...

Mas, adorei saber que ele se pintou... Falei que gostaria de ter visto... que pintaremos muito os nossos rostos nas férias...

Ele me agradeceu 3 vezes... Inclusive na hora em que o coloquei na cama... Me perguntou, humildemente, se eu havia achado legal mesmo, ele ter se pintado: "Obrigado, mãe, porque você gostou da minha pintura no rosto!" Ele precisou repetir isso, sorrindo, 3 vezes. Percebi que dei conforto e alívio ao meu filho... Reconheci o meu pequeno, Graças a Deus!

Me senti tão cúmplice dele... Ai, que bom!!!

Um comentário:

  1. Precisamos cuidado e sensibilidade... de capacidade para lidarmos com as crianças e participarmos de suas manifestações...

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