História de nascimentos
Ressignifico a minha história ao falar do parto do Davi Lucas. Portanto, levei um tempo para escrever este relato, fruto de um processo de tomada de consciência e elaboração. Foi como buscar a cura para uma ferida que não queria se fechar, respostas para uma interrogação que me angustiava e paralisava mais do que fazia caminhar... Assim, conto-lhes abaixo uma história de nascimentos... e de como fui nascendo... pouco a pouco...
Nasci em uma família de muitas mulheres, sendo a primogênita de quatro. Primeira neta materna e paterna, sempre carreguei a função de ser modelo. Cumprindo este papel, tornei-me observadora, exigente, comprometida e um tanto líder. Continuei, na minha geração, sendo a primeira a formar, a casar, ter filhos...
Bem, filhos...
Somos conhecidas como mulheres fortes, férteis, bonitas, parideiras... Minha avó materna pariu onze, nove em casa. A avó paterna pariu oito, dois em casa. Minha mãe teve quatro partos hospitalares, e não tinha tempo para se pensar em analgesia, pelo tipo de evolução dos seus partos. Por aqui, cesárea só acontecia quando necessário ou para aproveitar e fazer a tal “ligadura”.
Cumprindo a tradição engravidei na primeira tentativa. Recém formada, quase cinco anos de casamento, achamos que era o momento do nosso bebê.
Meus projetos sempre privilegiaram a família. Embora, feliz com a formatura e amando a minha profissão, sabia que se direcionasse mais atenção à carreira, adiaríamos por muitos anos o sonho de termos filhos. Não me imaginava trabalhando e deixando-os aos cuidados de outras pessoas. A escolha profissional combinava com o desejo de ser mãe. Psicóloga, optei pela clínica, onde o caminho deveria ser trilhado com uma dose especial de perseverança. Levaria tempo para que minha agenda profissional absorvesse a doméstica.
Curtimos muito a gravidez. Demos atenção e sentido a cada novo dia daquele novo ser em nossas vidas. Pensávamos em como ele seria, e em todos aqueles planos e significantes que construímos pelos nossos filhos, como que garantido toda a felicidade deles.
Pedro Emanuel já existia em nossas vidas antes da fecundação. Escolhemos o seu nome em um retiro espiritual. Quando encontramos os meus pais, ao final do retiro, anunciamos a descoberta do Pedro como se ele estivesse em meu ventre. Era início de 2002. Ele foi concebido em novembro do mesmo ano.
Pedro Emanuel é o primeiro neto e bisneto na minha família e o quinto (após 10 anos) na família do pai. Sua presença foi sempre muito acolhida e festejada!
O pré-natal foi realizado com a médica que sempre acompanhou as mulheres da família. É aquela médica dita “de casa”... que participa até das nossas “fofocas” .
Hoje sei que foi um pré-natal que seguiu protocolos... Tipo, o que ela aprendeu no estágio, na residência, sei lá onde; há duas décadas, vale para ser repetido... Nunca repensado? Toda consulta a mesma rotina: pesar, medir, toque, pressão, complementos vitamínicos, exames, ultrassons (14)... cólo fechado, cuidado com o peso, etc e tal.
Ficava incomodada, mas, como sou a “chata”, exigente e questionadora da família (tipo a que pensa e sofre mais) optei por acreditar que eram procedimentos necessários. Pensei que deveria viver de forma “simples” e sem muito “stress” este momento precioso em minha vida. Fui ótima paciente. Disciplinada, cuidadosa e crente...
Acreditava que tudo ia muito bem e assim, teria um parto lindo e saudável... Fazendo a minha parte e sendo uma boa menina. Lia sobre gestação, desenvolvimento do bebê, crianças, família, fisiologia do parto; pensando em me informar, estar mais bem preparada para a nova vida. Porém, não imaginava o quanto precisava saber para defender meus direitos... Inocente, não percebia que tais direitos já estavam sendo negligenciados e desrespeitados.
Embora a própria médica afirmasse que a gravidez não é uma doença, sua conduta era mais no sentido de me alertar sobre os riscos que mãe e feto poderiam vivenciar e reforçar a importância dos cuidados, que valorizar o processo natural que evoluía aos nossos olhos.
A “procura” por problemas foi satisfeita na 32ª. semana do Pedro em meu ventre. Em uma ultra, diagnosticaram líquido amniótico próximo ao limite inferior, início de Oligohidrâmnio. A partir daí, precisaríamos de uma monitoração ainda maior, até Cardiotocografia precisamos fazer. A notícia de que uma intervenção poderia ser feita de urgência trouxe muito desconforto a mim e ao meu marido. Preventivamente, me administraram 2 (duas) injeções de corticóide (Celestone) justificando a necessidade de amadurecerem os pulmões do bebê que poderia nascer prematuro.
Se eu tinha que lutar pelo parto normal, a partir daí, a minha luta era antes, segurar o Pedro Emanuel na minha barriga. A cada semana, um novo ultrassom: bebê não desenvolve na média, líquido ainda perto do limite (sem confirmar diagnóstico, mas com risco de poder vir a ser), placenta grau II (calcificando), coração bem... Até que na 38ª. semana de gestação, ao fazer a 14ª. Ultra (16:30hs), em uma quinta-feira (início de férias de julho) escutei que embora, ainda, o feto não estivesse apresentando sofrimento, o meu ambiente uterino não estava melhor do que aqui fora, pois o bebê que não crescia como manda o “figurino” corria o risco de vir a enfrentar uma desnutrição e sofrer.
Estava diante de uma profissional que me disse que faria o meu parto normal,_certamente aquele hospitalar com direito a todas as intervenções (dês)necessárias. Uma médica que nem tocava na possibilidade da cesárea, a não ser que algo a justificasse.
Não imaginei que encontraria justificativa... mas, de forma precoce fomos surpreendidos com o risco da cirurgia que salvaria o meu bebê de um possível risco. Conduta de extrema prevenção! ?
Ouvi que precisava me internar naquela noite...
“Pra quê esperar mais?”...
“Não falamos sobre a cesárea, mas é muito tranqüila e você não deve se preocupar”...
Como eu não estava preparada para a internação, ela me pediu que eu não fosse ao salão de beleza...(como ela conseguiu pensar nisso?) para não fazê-la esperar como outras pacientes o fizeram...
Saí do consultório e sem me entender (naquele momento) chorei compulsivamente, até soluçava... Então, pessoas vieram me oferecer ajuda. Por algum tempo fiquei, literalmente, sem direção. Não sabia o que fazer... paralisei. Depois, respirando fundo, pensei na pessoa mais próxima daquele endereço que poderia me acolher; meu pai. Seu escritório era próximo. Fui andando. Quando o vi, chorei tudo de novo, sem conseguir explicá-lo. Quando me recuperei, narrei os fatos e ele me ajudou a organizar as ações que precisava realizar em tempo record. Ligamos para a minha mãe e ela me acompanhou até em casa para arrumarmos o necessário. Pedi ao meu marido que providenciasse a filmadora e outros acessórios. Nem ele acreditou que seria tudo para o dia em questão.
O tempo todo conversava com o Pedro, para que ele entendesse o que estava acontecendo e viria a acontecer. Pedia, ao mesmo tempo, que ele compreendesse e se preparasse. Pensar na retirada dele de dentro de mim sem que ele me desse algum sinal, sem que a natureza permitisse, me causava muito mal-estar. Imaginava o meu bebê dormindo, tranqüilo... imaginava o susto que ele viveria ao ser extraído...
Mas, seguimos a boiada...
No hospital vivemos a beleza de uma família rica em afeto (irmãs, cunhadas, cunhados, pais, avós, tias) todos aderiram à “urgência”... Não conseguiria planejar tão bem uma reunião assim. Foi o que fez a diferença e humanizou o nascimento do meu “pequeno”. Mal cabiam no tal “mineirinho”...
Ao ver a turma que foi nos acompanhar a dra. corou: “Nossa, isso tudo prá você... quanta responsabilidade!”
O meu marido acompanhou de dentro do bloco, suportando um ambiente que sempre o fragilizou e naquele momento, se descobriu um homem, que por um filho, enfrenta qualquer desafio.
Fiquei em outro mundo durante todo o processo... me conectei com o meu corpo e orei... orava e louvava a Deus... a natureza Divina... nenhum estímulo no bloco me despertou de minha interiorização.
Aproximando o momento do “nascimento” recebi um beijo, na testa, do anestesista que me fez “acordar”... Ele começou a narrar as últimas manobras da obstetra e quando o bebê chorou ele gritou: “PSB” – Perfeito, saudável, bonito!!! (20:50hs)
Sem poder ver o meu filho, escutei que ele era a cara do pai.
Pedro foi para longe de mim sofrer as intervenções de rotina, foi aquecido em panos, elevado pelo pediatra para a platéia do “mineirinho” (como em o Rei Leão), e então, veio para o meu peito. Vi nele um herói... me reconectei com ele em um profundo olhar... que olhar!!! Acariciei as mãozinhas e fui lhe dizendo sobre o quanto era bem-vindo e de como o amava. O papai acompanhava a tudo se derramando em lágrimas. Não amamentei na sala de parto, pois, sentia-me anestesiada até o pescoço... nem a respiração me parecia natural...
O pediatra da sala de parto tentou me fazer várias perguntas de rotina sobre dados do pré-natal para a ficha de Pedro... Não queria dar atenção a ele naquele momento único em que recebi meu filho em meus braços... aff... Nesse momento a GO me percebeu e teve o bom senso de alertar o dr. sobre os dados na ficha do pré-natal. Ela é muito detalhista e tudo o que ele precisava já estava anotado lá. Continuei “lambendo a cria” com o maridão.
Do meu colo, Pedro foi para o colo do pai que o apresentou aos parentes. Depois seguiram para o berçário. Solicitei que não demorassem a levá-lo para o quarto para que desse a primeira mamada. Fomos respeitados, enfim. Pedro retornou em 1 hora. A amamentação foi um sucesso desde a primeira pega. Fizemos o nosso alojamento conjunto contra as rotinas que o hospital indicava.
A obstetra nos visitou, rapidamente, pela manhã. Estava a caminho do aeroporto e começando o seu período de férias. Uma colega passaria para avaliar a alta. Deixou como conselho que eu aproveitasse a oportunidade do descanso e os cuidados do berçário, pois, a partir da alta o filho era só meu. Não gostou de saber que ele já tinha passado a primeira noite conosco. Indicou o livro “Nana nenê” e ponto.
Bem, ai já existia uma mãe... e um poder que ninguém mais iria me usurpar...
Na alta, meu marido foi ao berçário se despedir das enfermeiras, nossas cúmplices, e voltou todo satisfeito com os elogios à esposa: “Se todas as mulheres que passassem por aqui fossem como a sua, seria um prazer trabalhar... Dificilmente, temos mães tão dispostas aos cuidados com os bebês como ela. Vocês estão de parabéns!”
Como assim... fizemos a diferença porque cuidamos de nosso bebê na maternidade. Impomos o alojamento 100% conjunto (ou quase). Porque amamentei sem dificuldade...
A partir daí, quis ajudar as mulheres em suas gestações, partos, amamentação e educação dos filhos. Pesquisei projetos e a literatura em questão. Desenvolvi com uma equipe de saúde o Projeto Nascer – Desenvolvimento em família. Um projeto com o objetivo de informar e apoiar as famílias desde o desejo da gravidez.
Precisava ajudar outras mulheres... precisava refazer-me de minha ignorância e entender em que mundo estava vivendo... Porque perdi a direção de minha vida? O que mais precisava para voltar a conduzi-la sem correr novos riscos? Porque fui insuficiente?
Insuficiência foi o significante que me acompanhou por algum tempo, sendo conteúdo para minha análise... rsrsrs
Para muitos pareci vaidosa... exagerada...
Escutei muitas vezes que pensava demais e por isso sofria além do necessário.
Continuei frustrada com a cesárea por muito tempo. Talvez, ainda hoje. A cicatriz, admirada pela doutora, que se “encantava” por minha ótima cicatrização, estava ali para me lembrar a via de nascimento indesejada. Como gostaria de conseguir esquecer, fantasiar, ou não sofrer mais por este procedimento... por minha falta de maturidade... por ter sido tão passiva...
Pedro desenvolveu asma após uma bronquiolite aos 7 meses. Ainda hoje, lutamos com suas duras crises. Cada crise respiratória nos faz pensar que o nosso filho não conseguiu se beneficiar das vantagens que o parto natural o ofereceria.
Não poderia repetir... Aprendi que não devemos falar em arrependimentos, lamentarmos o menos possível. Avaliamos bem, temos uma opinião mais bem elaborada e então, ações mais responsáveis e satisfatórias quando podemos rever o vivido... principalmente, por nós mesmos. Um dia após o outro...
Peregrinei por diversos consultórios de ginecologistas obstetras para conseguir um que valorizasse e apoiasse partos normais. Ouvia que não teria esta opção, pois havia passado pela cesárea.
Quando engravidamos do Davi Lucas me lembrei de uma matéria na revista Crescer, onde uma leitora relatava a sua experiência de VBAC. Esta “pulga atrás da orelha” me motivou a ler mais, investigar na net os grupos apoiadores do parto normal. Inicialmente, tentei argumentar com a GO do pré-natal. Ela não me acompanharia. A cirurgia já estava agendada no início da gestação. Inclusive, o retorno para a retirada dos pontos. Não poderia entrar em trabalho de parto; risco de ruptura uterina... O fantasma do líquido amniótico retornava... placenta amadurecendo antes... etc. Ela chamava a minha placenta de placentinha.
Em contato com o grupo da Ong Bem Nascer, recebi diversos esclarecimentos, de doulas, obstetras e enfermeiras obstetras. Pessoas abençoadas que me ajudaram a escrever uma nova história...
O pré-natal sofreu uma mudança radical! Troca de GO, medicina por evidência, mais informação em livros e vídeos (Michel Odent – O Renascimento do Parto e A Cientificação do amor-, Nascendo no Brasil, Um dia de Vida, etc), fiz pilates (recomendo). Senti-me mais saudável, segura e capaz.
Realizei um chá de bebê fantástico, onde nós mulheres vivenciamos o resgate da nossa ancestralidade, força e natureza em uma sessão de Biodanza (quem não conhece, vale a pena conferir). Depois, vivi um divertidíssimo com a família, medindo a barriga, fazendo os convidados dançarem e atuarem como personagens infantis. Curti tudo com a alegria de quem sabia e confiava no novo caminho.
Sempre tive o apoio do meu marido que se informava como eu. Interessado por tudo, ele dava aula aos outros que nos questionavam sobre as novas decisões...
Enfrentamos a todos com bom humor sem permitir qualquer situação que pudesse nos minar.
Combinei com a Enfermeira Obstetra que ela me acompanharia em casa para que eu pudesse ir na hora ideal para o Hospital (não sabia se iria para a Casa de Parto, pois tinha uma cesárea anterior). Portanto, elaborávamos planos A, B... rsrsrs... Mas, queríamos a garantia do Trabalho de Parto e Parto humanizados.
O maridão programou as férias para o final da gestação, pois queria me acompanhar de pertinho e estar bem à disposição. Arrumamos o cantinho do nosso bebê BIS (como brincávamos) com o mesmo tema do quartinho do Pedro (mamíferos). Namoramos bastante (parte dos hots – rsrsrsrs), conversamos muito, imaginando como seria o momento, o grande dia!
As vésperas de completarmos 40 semanas (em uma quinta-feira), o GO que nos acompanhava viajou a trabalho e deixou um colega (da mesma linha de assistência) à disposição para qualquer urgência. Na ocasião, ele brincou que era para eu falar para o Davi esperar ele retornar, que ele queria acompanhar, pois havia acompanhado o pré-natal, etc... Imaginei que fosse ficar um tanto aflita com esta ausência. No entanto, surpreendi-me com a tranqüilidade e a confiança que conquistava dia-a-dia, auxiliada pelo dr., pelas doulas, amigas (virtuais) e a maravilhosa enfermeira que já me visitava e encorajava. Era o meu “empoderamento”...
Passamos um ótimo fim-de-semana. Arrumei as bolsas para a maternidade, as lembrancinhas, compramos algumas coisas para a hora do TP (sucos, biscoitos água e sal, chocolate, gatorade, etc). Acabei de escrever meu plano de parto (inspirado pelos postados no grupo da Ong Bem Nascer) e continuei me deliciando com a espera... nunca achei tão bom esperar...
Vinha tendo contrações indolores (BHs) há alguns meses e mais nas últimas semanas. Na madrugada de domingo para segunda elas ficaram mais intensas, acompanhadas de uma pequena cólica. Apresentavam intervalos irregulares (entre 7 min, 8 min – sem ritmo definido). Pela manhã vi sinal de sangue na calcinha e percebi um pequeno corrimento (cólo se apagando). Fiz um último ultrassom que sinalizou 2 circulares de cordão (sem susto). Continuei com as contrações, porém mais espaçadas e fraquinhas. Elas se apresentaram dessa forma, tímida, ao longo do dia. Entre 19hs e 19h30min, enquanto repousava ao lado do meu marido, senti uma contração mais forte e “escutei” ou senti um “ploc”- rsrsrs. Era a bolsa se rompendo. Ligamos para a enfermeira que nos visitou por volta das 23hs. Em um toque ela percebeu pouco mais de 1 cm de dilatação. Estava com rompimento precoce de membranas e não havia engrenado o TP (trabalho de parto). A EO auscultou o coração do bebê, que estava ótimo! O aspecto do líquido amniótico também tranqüilizava; então, ela nos aconselhou permanecermos em casa e aguardarmos a evolução.
Nesse tempo, ligamos para os meus pais que foram prá minha casa. Minha mãe veio com a bagagem. Sabia que permaneceria conosco e cuidaria do Pedro Emanuel.
A madrugada foi longa. As contrações se intensificavam, mas, o TP não engrenava. Não dormi. Já não dormia há mais de 48 horas.
A nossa querida EO retornou pela manhã, cedinho... que bom!
Ela auscultou o coração do bebê. Dessa vez meu marido e minha mãe se assustaram, pois, esse tempo se alongou... custamos a “conferir” o coração... Ufa! Estava ótimo! Incrível, continuei em paz... Estava muito conectada com o meu filho e sentia que ele estava bem e querendo a mesma coisa que eu... tudo poderia continuar como o planejado, sonhado, desejado...
Ligamos para o GO que indicou o mesmo que a EO; deveríamos ir para a Casa de Parto. Lá eu poderia ficar o tempo todo assistida por uma EO, sendo estimulada pela equipe, que faz a torcida necessária para que tudo aconteça sabiamente como a natureza se faz.
A bagagem para a Casa de Parto do Sofia foi grande... Incluímos som portátil, ventilador, cds (missas cantadas em estilo gregoriano – “Vozes da tranqüilidade” e músicas de louvor em Sax – Brás Os – Canção Nova); bolsa para compressa, além das bolsas e comidinhas já indicadas, chocolate Bis para lembrancinha, etc.
Pedro e minha mãe se despediram da minha barrigona e lá fomos nós...
Fomos muito bem recebidos na Casa de Parto. A EO de plantão, mais uma que foi plantada para sempre em meu coração, foi incansavelmente, presente e cuidadosa... doula e amiga. Como o TP não engrenava, chegamos a sofrer com o fantasma da cesárea. Tinha medo de começar a sofrer intervenções que bloqueassem o processo (antibiótico via cateter com 18 horas de bolsa rota, soro com ocitocina, anestesia, etc). Ela, com informações precisas, assim como o GO indicado pelo que me acompanhava, nos ajudaram a caminhar com o nosso projeto. Ligaram para o GO responsável que autorizou a espera das 24hs (seguindo a literatura) para que eu entrasse em TP ativo (2 contrações de pelo menos 1m20s em 10 min). Só então entrariam com o antibiótico por causa da bolsa rota.
Foi maravilhoso passar este tempo com o marido e a equipe da Casa; foram momentos íntimos, em que conversamos, nos sintonizamos e rimos. Recebi (da equipe da Lília – EO, parteira, raizeira... rsrsrs) massagens nas costas, nos pés, homeopatia, aromatização do quarto, escalda pés. Rebolei, caminhei, acocorei, usei o espaldar para apoio na hora das contrações, orei. Deitada não me sentia bem.
Anoiteceu e nada do TP engrenar.
Colocaram o cateter para o antibiótico.
Meus pais trouxeram o Pedro para uma visita. Ficaram surpresos ao me encontrar. (Me presentearam com uma medalhinha de Nossa senhora do Bom Parto. Levei-a comigo pendurada no pescoço)
“Achamos que você estaria em um hospital, em um quarto de enfermaria lotado...”
“Aqui é ótimo!”
Fizeram um “tour” pela Casa de Parto e se encantaram.
Ficaram felizes com o meu estado de felicidade, também.
Confiaram... Era a minha escolha...
Meu TP engrenou quando a família estava reunida (+ - 21hs).
Será que ver o Pedro me liberou... rsrsrsrs
Realmente, vê-los me trouxe mais alívio.
Estava pronta!
Pedro queria ficar conosco. Desde que o assunto parto começou a ser falado lá em casa, ele nos pedia para participar.
“Porque você não ganha o Davi aqui em casa?”
“Quero ver o Davi nascer...”
Durante a gestação, todos os desenhos dele tinham um casulo desenhado. Seu principal interesse, a partir de então, se tornou a natureza e em destaque, a natureza humana. O presente que ele escolheu para o dia das crianças foi um livro super bacana sobre o corpo humano chamado VIVO.
Pedro se informava e se preparava, também.
Porém, muito compreensivo, ele foi embora com os avós.
Pouco depois que ingressei na fase ativa do parto, recebi a notícia, que o médico que me acompanhou no pré-natal, estava a caminho da maternidade.
Mais um para aumentar a torcida!!! Rsrsrs
Por volta das 23hs, ele chegou e ao me examinar estava com 3 cm de dilatação. Desanimam...
Não era hora de desanimar... estava envolvida na partolândia...
Meu “marido-doulo” me massageava a cada contração (2 em 10 min)
O pior momento era o que eu precisava me deitar para a ausculta do coração do bebê. Aí, a contração doía sem medida (mesmo amparada e massageada pelo maridão). De outra maneira, agachava, rebolava, era massageada e, tudo dava certo.
Exceto quando era necessário auscultar o coração do bebê, tivemos muita privacidade. A placa na porta do quarto (EM TP, não incomodar) destacava o respeito ao nosso tempo e a nossa intimidade. Meu marido e eu dançamos, nos abraçamos e beijamos durante o TP. Tudo era diferente! Tinha som, cor, cheiro, olhar e pele diferentes... A ocitocina dominava todos os nossos sentidos... O hormônio do amor... Sentimos a força do nosso amor... Meu marido estava ali; o macho diante de sua fêmea parindo... ambos em defesa da cria... instinto e intuição...
Ah, a intuição... Foi o sentido que mais nos dominou. Meu marido, além de mim, confiou muito e me deu força quando eu a achava perdida. Rezamos muito... nossa confiança estava em Deus.
Preciso ressaltar que acreditar no mistério fez toda a diferença para que percorrêssemos esse caminho. Destituir-me do poder, de qualquer controle era necessário. Parece contraditório quando na verdade o que se propõem é o nosso empoderamento. Senti-me mais perto da mulher, fêmea, mamífera, quando fui toda, natureza...
Entendi que assim não existe sofrimento... É racionalizar que faz sofrer...
Coloquei-me nas mãos de quem é o Senhor... É Ele quem a tudo conduz...
Divina Natureza... Em seu tempo, tempo “Kairós”, tudo pode acontecer...
Inspiravam-me as lembranças de tantas mulheres que pariram em minha ancestralidade. Era ainda mais emocionante a certeza de que assim foi com Maria... sempre meu modelo de gente. Ela trouxe o Salvador de parto natural, em meio aos bichos... Como diz Michel Odent: ...”uma das maiores odes ao parto”...
Por volta das 3hs da madrugada o dr. Parteiro fez um novo exame que detectou 5 cm. Ele disse que eu estava indo bem... Suspirei fundo...
As contrações já eram 3 (três) em 10 min. O sono e o cansaço me dominavam. Mas, neste ritmo era impossível dormir. Segurava no espaldar para não cair (de sono, no sono) no pequeno intervalo entre as contrações. Encheram a banheira para que eu pudesse buscar alívio.
Ouvi que a EO que me acompanhou em casa ligou pedindo notícias. São as pessoas fazendo a diferença em nossa vida.
Fui, de biquíni (hehehe), para a banheira. Que delícia! Relaxei... sem dormir... As dores são realmente, aliviadas. Perdi a noção do tempo que fiquei ali. Por mim, não sairia mais. Mas, ainda era cedo...
Voltei para o quarto. Entre 5 (cinco) e 6 (seis) horas da manhã, “perdi as forças”. Tremia dos pés a cabeça (e não era de frio) – Descompasso total. Meu marido (me acompanhando desde o início e exausto) me aconselhou a fazer uso de uma analgesia química. Estava fraca e sabia que tinha mais algumas horas de trabalho. Também, sabia que precisaria de mais forças para este tempo que se aproximava. Na verdade, estava acostumada e recebendo bem cada contração. Porém, não suportava mais o sono, a privação desse e o cansaço físico.
Caminhei amparada pelo meu marido e a EO (linda) até a maternidade do Sofia para receber a analgesia. Fiquei um pouco preocupada e triste de precisar fazer uso dessa intervenção... Fiquei preocupada de estar vivendo um processo tão longo... mas, sabia que tudo daria certo.
Foi tranqüilo receber a Peridural de um anestesista conectado ao processo humanizado do nascimento. Ele foi super carinhoso e cuidadoso. A dose foi medida para que eu pudesse deambular. Após 15 minutos de observação, voltei caminhando para a Casa de Parto. Colocaram o soro. Neste momento, consegui me deitar e dormir.
Acordei sentindo, novamente, as contrações (4 em 10mins). No entanto, era uma nova mulher... Forças renovadas! Podia começar tudo de novo... rsrsrs.
Depois, percebi que o sono reparador durou menos de 1(uma)hora.
Como era manhã (de quarta – 05 de novembro) ligamos para os meus pais virem com o Pedro Emanuel para que ele estivesse junto de nós. Tentaríamos realizar o desejo dele em participar do nascimento do irmão.
Um novo exame por volta das 8hs detectou entre 9 e 10cm de dilatação.
Meus pais chegaram com o Pedro.
Fui para o chuveiro.
Fiquei na bola.
Acocorei.
Entrei na banheira, onde planejei ganhar o meu bebê, por volta de 8:30hs. Meu marido entrou na banheira para me amparar.
A EO, Lília, me ofereceu mais homeopatia para que eu tomasse entre as contrações (puxos involuntários) da fase do expulsivo.
A EO (parteira) me indicou uma maneira de soprar (tipo assobio) que auxilia na força, localizando-a onde era necessário fazer.
Meu pai filmava. (Ele nunca imaginou participar desse momento. Mas, foi totalmente, envolvido por tudo e todos. Segundo a minha mãe, o pai de 4 (quatro) mulheres, é um novo homem. Transformado, renascido...)
Minha mãe e Pedro ficaram ao meu lado me acariciando e dando as mãos.
Pedro fazia força junto comigo.
Eu falava: “Vem, Davi!” “Vem, meu filho!”
Pedro repetia: “Vem, Davi!”
Entendi que este momento do expulsivo exige muito mais da mulher... Precisamos estar, ainda, mais conscientes do corpo... ter e fazer força quando o corpo pede, estar ativa, bem disposta. É uma dor que te desinstala, dá energia e movimenta... Uma dor com sentido e que dá sentido.
Minha mãe cantava hinos de louvor... “Deixa a luz do céu entrar... deixa a luz do céu entrar... Abre bem as portas do teu coração e deixa a luz do céu entrar...”
Embora, o Davi apresentasse bradicardia nas contrações, os batimentos ficavam regulares nos intervalos. Assim, tudo ia acontecendo...
Senti a cabecinha do Davi coroar. Acariciei o cabelinho. Vi, por um espelho que o GO (parteiro) posicionou que o momento chegava.
O dr. (parteiro) amparou o períneo.
Mais 2 forças e...
... as 09:16hs nasceu o Davi Lucas Silveira Ivo...
Foi uma explosão (“bomba” de endorfina) de alívio... alegria... amor...
O dr. Parteiro (rsrsrs) retirou as 2 circulares (apertadas) de cordão e me entregou ele. Nosso lindo estava cansadinho, ficamos estimulando ele ali, coladinho em mim, enquanto preparavam o pai para cortar o cordão. Depois que cortou ele precisou de ser aquecido e mais estimulado (apgar 7) e então, chorou forte (apgar 9).
Pedro Emanuel foi atrás, acompanhando o irmão.
“O que você vai fazer com o meu irmão?”
Saí da banheira para a descida da placenta e avaliar o períneo. Sem episiotomia, tive uma pequena laceração (1º. Grau). Ganhei 2 (dois) pontos bem superficiais (só mucosas).
Enquanto, o Davi recebia os estímulos, meu marido permaneceu ao meu lado e me abraçou. Quando ouvimos o choro alto dele, choramos juntos, compulsivamente, como crianças, de pura emoção e alívio. Foi um choro gostoso... cheio de sintonia e cumplicidade. Emocionou a todos.
Davi voltou para mim enquanto recebia a sutura. Depois, fomos para o quarto e ficamos deitados, eu, Davi e Pedro. Meu marido foi convidado a me servir uma deliciosa canja (escolhida por mim, no cardápio do Sofia)... Que lindo! Que delícia!
Depois ficamos lambendo nossa cria. Só Xande e eu.
Davi e o pai dormiram bem. Eu, hiper-ocitocinada estava alerta, rindo à toa; recebendo as visitas... querendo falar... super empolgada!!! Quanta felicidade!!!
Dei o primeiro banho no meu bebê.
Da pediatria ele recebeu, por protocolo a 1ª. Dose da Hepatite B, a BCG, e vitamina K. Consegui evitar o nitrato de prata nos olhos.
Saímos dali deixando muito de nós e levando todos em nossos corações. Quando me lembro da equipe, parece que é parte de minha família... É sentimento de gratidão, carinho e admiração. Sentimos vontade de estender nossa estadia, rsrsrs... Sentimo-nos em casa.
Todos fazem parte do nosso coração.
Quero que entendam que tudo aconteceu porque tive coragem de mudar... porque busquei e encontrei pessoas (profissionais) que amam e se dedicam ao que fazem... que respeitam a vida e dão à vida em vida...
À Nágela, Míriam, Lucas, Lília, Maeve, Ana Lídia (e outras técnicas de enfermagem), anestesista (me lembrem o nome...), Rebeca (MSN), Letícia (MSN), Sybille, Angelita, Hemmerson... A ONG Bem Nascer, lista Parto Nosso, meus pais, meu pequeno Pedro Emanuel e meu adorável marido,meu muito obrigada! Nosso muito obrigado!
Acredito mais na humanidade por causa de vocês.
Daniela Silveira