sábado, 29 de maio de 2010

História de um per(curso) que se transforma a cada dia...


Há pouco mais de 12 anos assistíamos à aula inaugural de Fisiologia no ICB da UFMG.
Nós, alunos de Psicologia, oriundos da FAFICH, também UFMG... Mas, FAFICH...
A professora, em questão, não escondia a insatisfação e o esforço que necessitava empenhar na tarefa de acompanhar o semestre daqueles alunos. Lecionar um conteúdo tão significativo e que exige tanta competência; além de uma capacidade especial para apreendê-lo, a uma classe de faficheiros...
Ah! Que absurdo! Parecia que era um castigo que a chefe do departamento daquela unidade direcionava a alguns professores a cada semestre... ganhar a turma dos faficheiros...
Estar nos corredores do ICB gerava desde o primeiro dia, inaugurado pela aula de Anatomia quando ainda éramos calouros, uma estranheza... um sentimento de fora do ninho, de patinho feio, como já nos contou Andersen em sua emocionante e premiada estória.
Bem, estávamos no terceiro período. Quem conquistou uma cadeira na aula de Fisiologia havia vencido dois semestres (Anatomia e Neuroanatomia)... Sempre, com o sentimento de que havia se esforçado além da própria capacidade... que contara com a nobreza dos mestres e doutores (literalmente, mais doutores que mestres) que se dispuseram a lecionar para os menos favorecidos intelectualmente, e outras coisas mais...
Bem, mas nada parecido até então com o que ocorreu na aula de Fisiologia...
Naquele primeiro dia fomos recebidos pela “benevolente”, “caridosa”, “paciente” professora da disciplina que nos indicou o programa impossível de acompanharmos.
“Nivelarei ao melhores (os médicos, ainda estudantes de medicina).”
“Não pensem que vou ceder para a mediocridade de vocês. Vocês não sabem estudar, não sabem apresentar trabalhos, fazem provas horrorosas”... E por aí desenvolvera o seu discurso.
Para finalizar, depois de esclarecer que seria uma grande batalha, o desafio de nossa vida discente, vencer aquela disciplina, ainda fomos surpreendidos com a seguinte colocação:
“Na próxima aula vocês assistirão como se apresenta um trabalho. Será o modelo que deverão seguir para a apresentação de vocês. Já chega estar aqui com este tipo de turma, não vou aceitar ficar escutando as suas besteiras. Sei que será difícil para vocês acompanharem o nível do qual irão testemunhar, mas, deverão se empenhar muito, pois, não aceitarei nada menor...”
Nas duas aulas seguintes assistimos a apresentação dos estudantes de medicina... Eles acreditavam em tudo o que a professora dizia... Talvez, nós também...
Caríssimos, está parecendo uma estória de alguém que ficou “recalcado” (no senso comum da palavra, mesmo) e que é mais uma fantasia, pois o discurso imprime um caráter exagerado. Mas, afirmo que não consigo repetir o “show” de arrogância e presunção que assistimos.
A professora altiva dos primeiros dias de aula elaborou um programa em que não precisava dar aulas expositivas. Realizávamos leitura do conteúdo, (GE) grupos de estudo e exercícios, (GD) grupos de discussão... Depois, cada grupo era responsável em apresentar uma das questões para a turma. E a professora... dormia (literalmente). Até em nossas apresentações de trabalho, ela dormia.
Pensarão que ela estava certa, que os trabalhos estavam pouco elaborados em relação ao conteúdo e aos recursos para a apresentação... mas, não! Não éramos tolos de não explorarmos em nós as nossas capacidades de pseudos-doutores.
Aliás, fomos nossos mestres nesta disciplina... Bons mestres...
Ninguém precisou fazer prova suplementar.
Pergunta: Pedagogia... Provocar para criar desafios... Não sei...
E pouco mais de 12 anos depois... quanta coisa mudou em minha vida... e tenho certeza na vida de meus colegas, da professora... dos estudantes de medicina... etc e tal...
Agora estava matriculada em uma disciplina de um departamento da própria FAFICH. Talvez, por ironia do destino elas apresentam mais de uma circunstância semelhante: o FI, serem de departamento fora do departamento de psicologia... ser elaborada para receber mestres e doutores, pessoas privilegiadamente bem dotadas cognitivamente, intelectualmente.
Mais ainda, dessa vez percebi que os mestres e doutores, também são tolerantes, pacientes, cheios de boa vontade... Pessoas acima do bem e da verdade... Mas, também, são metafísicos... Talvez, o que falamos tantas vezes nessa disciplina: são transcendentais...
Eu... eu sou qualquer coisa que aprendi palavras difíceis e bonitas...
Mas, também sou ousada!!! HAHAHAHAHA
Ou será burra...
Casada há quase 12 anos, mãe de 2 crianças maravilhosas (2 lindo meninos), cuido dos 2 e amamento 1 deles... dona da casa e de casa em todos os sentidos (lavo, limpo, passo, cozinho, administro)... psicóloga, psicanalista (atualmente, 23 pacientes por semana), amiga, filha, colega; também, tento o tempo prá novela, para o filme, para o noticiário, para a Canção Nova, para o serviço social... trabalho a minha espiritualidade, agradando, louvando e agradecendo a Deus...
Bem, também estudo... além de me dedicar a cada caso que acompanho, resolvi aproveitar a boa vontade dos mestres e doutores da filosofia e tirei do meu tempo que é “tão livre” e “pouco aproveitado” uma quarta-feira das 14h as 18h (mais 1hora para ir e vir) e estudar lá com eles... Talvez, ser o parâmetro de como eles são geniais em um mundo de tolos como eu que não leu nada do que eles leram, que não fala as várias línguas que eles falam, que se esforça para entender Kant e outros tantos teóricos com dificuldade...
E o professor, falou na primeira aula que nivelaria à turma... não adiantava pedir atenção especial... seria difícil acompanhar e se estávamos ali, que fizéssemos a nossa parte...
Acredito que era, desistam... Por favor, não retornem na próxima aula... hahahahahaha
Teimosa!
Voltei!
Estudo se dá...
Bom começar a conhecer Kant...
Bom viver...
Quanta coisa não mudou...
Mas, quanta coisa eu mudei...
Tudo, Graça de Deus em minha vida... Tudo virtude que ele dá...
E das minhas misérias, porque estas são minhas mesmo, tento encontrar a luz...
No ICB, na Psicologia, na Filosofia... em família... nos meus filhos e no meu marido... nos meus amigos... nos livros respeitados e nos criticados... nos saquinhos de pão com mensagens de auto-ajuda...


P.S.: Sinto falta do senhor de 60 anos que se apresentou no primeiro dia de aula e não retornou... gostaria de “ler” um pouco sobre o que ele lê e escreve na vida...


Ainda estou a caminho...
Obrigada, Jesus!!!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Sagrado feminino





"Observando os ciclos de nosso corpo, entramos em sintonia com o corpo maior e organismo vivo e pulsante que é a Mãe Terra." Tatiana Menkaiká


Bem, acho que esse espaço também, pode me servir como um diário... Portanto, quero registrar aqui um momento interessante que me surpreendeu essa semana. Terça-feira, 25 de maio de 2010, depois de 9 mêses de gestação e 1 ano 6 mêses e 20 dias do nascimento do Davi Lucas (nascido de parto natural humanizado e que ainda amamenta) meu ciclo sexual feminino retornou.


Sem dor... (sempre sofri com cólicas)


Da minha primeira experiência com a maternidade, com o meu filho Pedro Emanuel (6 anos, 10 mêses e 8 dias) que nasceu em um parto cirúrgico, e foi amamentado até 1 ano e 1 mês, o ciclo voltou (as cólicas, também) quando ele completara 10 mêses de vida.


Ano passado, pouco antes de Davi completar 1 ano, em consulta ao GO que nos assitira durante o TP e Parto, falei da ausência do ciclo e escutei com assombro e admiração do profissional que estava "bloqueada"... "Nossa!!! Em geral, as mulheres menstruam após os 6 mêses do nascimento"...


Não me preocupei!


Senti-me bem estando "bloqueada" neste sentido... percebo o quanto permanecia conectada a natureza, a minha natureza... Vinha e venho me mantendo bem mais coerente com cada momento meu...


Há menos de 20 dias atrás saímos de férias (a família toda). Fomos à praia, Porto de Galinhas. Ainda no avião, na ida, quando este alcançava o céu, tive uma sensação diferente no ventre. rsrsrs... Sabia que não era ansiedade por estar voando... rsrsrs


Durante alguns dias do passeio, senti que meu corpo sinalizava algo diferente... depois, veio o corrimento de "clara de ovo" e entendi que em breve as mudanças se instalariam em minha rotina mensal.


Tais circunstâncias vem, mais uma vez, depor a favor da teoria de que a cada viagem amadurecemos, nos desenvolvemos... Isto fica nítido em crianças, que dão saltos incríveis!!! Estava, então, a mãe das crianças; e em especial, a mãe do Davi, entendendo que já poderia permitir ao corpo novas experiências... um novo tempo...


... Conquistas a partir da vivência de um parto respeitoso... de uma vivência da minhas possibilidades como fêmea e como mulher...


Hoje entendo que não é um ciclo menstrual ("monstrual") que voltou a fazer aniversário junto de mim... Mas, como comecei acima, re-conheço, re-nasço, re-conecto a mim o meu ciclo sexual...




Caminho assim...


Daniela Silveira

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Dar de coração...


No dia 09, sábado passado, meus pais comemoraram 35 anos de casamento. União bacana!!! É o casal referência da família e dos amigos... e o melhor, que não é só propaganda... Os dois se cuidam física e espiritualmente para darem conta do recado. Têm uma vida social "agitada" e de relacionamentos ricos e profundos...


Dessa vez, meu pai levou a minha mãe para uma noite 5 estrelas...


Arrumamos (Ana Paula e eu) uma necessaire para os dois e colocamos no porta-mala do carro sem que ela percebesse. Fomos ao quarto do hotel (Ouro Minas) e decoramos com pétalas de rosa vermelha (fizemos um enorme coração de pétalas na cama de lençóis branquinhos), solicitamos um espumante no balde de gelo, taças... colocamos uma cesta em formato de coração com petiscos, mudamos a iluminação do quarto... deixando tudo bem romântico e surpreendente para o nosso pai, também!!!


Na manhã seguinte, fomos as 4 filhas, Xande, Pedro e Davi tomar o breakfast no hotel e celebrarmos com nossos pais. Quando os dois desceram para o coffe shop a recepcionista os informou que eles tinham visitas... sem entenderem sorriram e repetiram: "Ah, é! Visitas..." E a recepcionista falou apontando a nossa mesa: "Vocês conhecem aqueles bebês..." E eles confirmaram como grande surpresa e grandes sorrisos, olhos brilhando, a nossa presença... Foi uma reunião fantástica!


Foi um momento de celbração da família... da união... do amor...


Cumplicidade, intimidade, doação, percepção, respeito, carinho, devoção, afeto, solidariedade, dedicação, boa vontade, acolhida, companheirismo, diálogo,... criatividade, também, são ingredientes para uma família feliz!!!


"Eu sou feliz!!!" - disse a minha mãe.


Aprendo a cada dia, que fazer o bem está em "nossas mãos"... Agarremos todas as chances...


quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Pintando o sete



Ontem (contexto: última semana de aula do ano. Festa de encerramento do ano realizada na semana anterior e despedida do ciclo da educação infantil), meu filho de 6 anos chegou com marcas de uma pintura no rosto que se apagava. Recebi meu filho com elogios e, de forma entusiasmada, perguntei sobre a pintura: "Hoje vocês ganharam uma pintura no rosto? Quem a fez?" (A princípio, imaginei que a pintura foi indicada pela professora). Mas, de repente, uma situação que poderia ser simples e lúdica se transformou em um momento de constrangimento para o "meu pequeno" que fez semblante de assustado e recuou ao invés de vir em minha direção. "Eu pintei o meu rosto de cachorrinho, mas a tia "fulana" não gostou, não! Ela falou: limpa isso agora!!!" Ele repetia a cena preocupado, narrando a forma autoritária da professora, e assustado, como se não estivesse feliz com aquelas marcas que denunciavam para mim a sua travessura.

Não sei se é porque é final de ano... Mas, me emocionei vendo aquela criança reprimida em seu processo criativo... em uma atitude tão natural, tão própria de uma criança: pintar o rosto. (com hidrocor lavável da Faber Castell - a escola estava devolvendo... por sinal, parece intacto. Imagino, inclusive, que deva ser a primeira vez que ele pegou neste material que fora pedido na lista do princípio do ano. Não vimos nenhum trabalho dele que demonstre que os hidrocores foram utilizados). Talvez, isso venha até esclarecer o entusiasmo dele em receber aquele lindo estojo, tão colorido!!! Foi logo querendo contato com tudo... na própria pele... Mas, era apenas prá ele guardar na pasta e levar para casa.

Essa cena está me interrogando tanto... Achei desproporcional...

Fala-se tanto em inteligência emocional...

Ai! Como ainda quero sonhar e encontrar um tempo em que as propostas pedagógicas e os profissionais de educação respeitem, genuinamente, a infância... Uma pedagogia infantil que se desinstale de sua zona de conforto e vá em busca de um processo que promova mais que desestimule, que encoraja mais que desencoraja... que fortaleça os potenciais infantis, auxiliando-nos no caminho de uma vida saudável e feliz...

A professora limpou o rosto do meu filho com álcool...

Quanta assepsia, meu Deus!

Respirei fundo e teci conselhos ao "meu pequeno" sobre conteúdos como respeito à autoridade, aos cuidadores, etc... Expliquei que a professora não havia proposto a atividade e que ela pode ter se sentido desafiada, pois, em uma sala de aula (tradicionalmente) o aluno não pode ter este tipo de autonomia, nem em relação a si mesmo. Ele não deveria ficar com o rosto pintado, pois poderia incentivar a todos os colegas a copiá-lo, etc e tal... Não poderia deixar ele se sentir livre para desrespeitar uma professora...

Mas, adorei saber que ele se pintou... Falei que gostaria de ter visto... que pintaremos muito os nossos rostos nas férias...

Ele me agradeceu 3 vezes... Inclusive na hora em que o coloquei na cama... Me perguntou, humildemente, se eu havia achado legal mesmo, ele ter se pintado: "Obrigado, mãe, porque você gostou da minha pintura no rosto!" Ele precisou repetir isso, sorrindo, 3 vezes. Percebi que dei conforto e alívio ao meu filho... Reconheci o meu pequeno, Graças a Deus!

Me senti tão cúmplice dele... Ai, que bom!!!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

História de nascimentos

História de nascimentos

Ressignifico a minha história ao falar do parto do Davi Lucas. Portanto, levei um tempo para escrever este relato, fruto de um processo de tomada de consciência e elaboração. Foi como buscar a cura para uma ferida que não queria se fechar, respostas para uma interrogação que me angustiava e paralisava mais do que fazia caminhar... Assim, conto-lhes abaixo uma história de nascimentos... e de como fui nascendo... pouco a pouco...
Nasci em uma família de muitas mulheres, sendo a primogênita de quatro. Primeira neta materna e paterna, sempre carreguei a função de ser modelo. Cumprindo este papel, tornei-me observadora, exigente, comprometida e um tanto líder. Continuei, na minha geração, sendo a primeira a formar, a casar, ter filhos...
Bem, filhos...
Somos conhecidas como mulheres fortes, férteis, bonitas, parideiras... Minha avó materna pariu onze, nove em casa. A avó paterna pariu oito, dois em casa. Minha mãe teve quatro partos hospitalares, e não tinha tempo para se pensar em analgesia, pelo tipo de evolução dos seus partos. Por aqui, cesárea só acontecia quando necessário ou para aproveitar e fazer a tal “ligadura”.
Cumprindo a tradição engravidei na primeira tentativa. Recém formada, quase cinco anos de casamento, achamos que era o momento do nosso bebê.
Meus projetos sempre privilegiaram a família. Embora, feliz com a formatura e amando a minha profissão, sabia que se direcionasse mais atenção à carreira, adiaríamos por muitos anos o sonho de termos filhos. Não me imaginava trabalhando e deixando-os aos cuidados de outras pessoas. A escolha profissional combinava com o desejo de ser mãe. Psicóloga, optei pela clínica, onde o caminho deveria ser trilhado com uma dose especial de perseverança. Levaria tempo para que minha agenda profissional absorvesse a doméstica.
Curtimos muito a gravidez. Demos atenção e sentido a cada novo dia daquele novo ser em nossas vidas. Pensávamos em como ele seria, e em todos aqueles planos e significantes que construímos pelos nossos filhos, como que garantido toda a felicidade deles.
Pedro Emanuel já existia em nossas vidas antes da fecundação. Escolhemos o seu nome em um retiro espiritual. Quando encontramos os meus pais, ao final do retiro, anunciamos a descoberta do Pedro como se ele estivesse em meu ventre. Era início de 2002. Ele foi concebido em novembro do mesmo ano.
Pedro Emanuel é o primeiro neto e bisneto na minha família e o quinto (após 10 anos) na família do pai. Sua presença foi sempre muito acolhida e festejada!
O pré-natal foi realizado com a médica que sempre acompanhou as mulheres da família. É aquela médica dita “de casa”... que participa até das nossas “fofocas” .
Hoje sei que foi um pré-natal que seguiu protocolos... Tipo, o que ela aprendeu no estágio, na residência, sei lá onde; há duas décadas, vale para ser repetido... Nunca repensado? Toda consulta a mesma rotina: pesar, medir, toque, pressão, complementos vitamínicos, exames, ultrassons (14)... cólo fechado, cuidado com o peso, etc e tal.
Ficava incomodada, mas, como sou a “chata”, exigente e questionadora da família (tipo a que pensa e sofre mais) optei por acreditar que eram procedimentos necessários. Pensei que deveria viver de forma “simples” e sem muito “stress” este momento precioso em minha vida. Fui ótima paciente. Disciplinada, cuidadosa e crente...
Acreditava que tudo ia muito bem e assim, teria um parto lindo e saudável... Fazendo a minha parte e sendo uma boa menina. Lia sobre gestação, desenvolvimento do bebê, crianças, família, fisiologia do parto; pensando em me informar, estar mais bem preparada para a nova vida. Porém, não imaginava o quanto precisava saber para defender meus direitos... Inocente, não percebia que tais direitos já estavam sendo negligenciados e desrespeitados.
Embora a própria médica afirmasse que a gravidez não é uma doença, sua conduta era mais no sentido de me alertar sobre os riscos que mãe e feto poderiam vivenciar e reforçar a importância dos cuidados, que valorizar o processo natural que evoluía aos nossos olhos.
A “procura” por problemas foi satisfeita na 32ª. semana do Pedro em meu ventre. Em uma ultra, diagnosticaram líquido amniótico próximo ao limite inferior, início de Oligohidrâmnio. A partir daí, precisaríamos de uma monitoração ainda maior, até Cardiotocografia precisamos fazer. A notícia de que uma intervenção poderia ser feita de urgência trouxe muito desconforto a mim e ao meu marido. Preventivamente, me administraram 2 (duas) injeções de corticóide (Celestone) justificando a necessidade de amadurecerem os pulmões do bebê que poderia nascer prematuro.
Se eu tinha que lutar pelo parto normal, a partir daí, a minha luta era antes, segurar o Pedro Emanuel na minha barriga. A cada semana, um novo ultrassom: bebê não desenvolve na média, líquido ainda perto do limite (sem confirmar diagnóstico, mas com risco de poder vir a ser), placenta grau II (calcificando), coração bem... Até que na 38ª. semana de gestação, ao fazer a 14ª. Ultra (16:30hs), em uma quinta-feira (início de férias de julho) escutei que embora, ainda, o feto não estivesse apresentando sofrimento, o meu ambiente uterino não estava melhor do que aqui fora, pois o bebê que não crescia como manda o “figurino” corria o risco de vir a enfrentar uma desnutrição e sofrer.
Estava diante de uma profissional que me disse que faria o meu parto normal,_certamente aquele hospitalar com direito a todas as intervenções (dês)necessárias. Uma médica que nem tocava na possibilidade da cesárea, a não ser que algo a justificasse.
Não imaginei que encontraria justificativa... mas, de forma precoce fomos surpreendidos com o risco da cirurgia que salvaria o meu bebê de um possível risco. Conduta de extrema prevenção! ?
Ouvi que precisava me internar naquela noite...
“Pra quê esperar mais?”...
“Não falamos sobre a cesárea, mas é muito tranqüila e você não deve se preocupar”...
Como eu não estava preparada para a internação, ela me pediu que eu não fosse ao salão de beleza...(como ela conseguiu pensar nisso?) para não fazê-la esperar como outras pacientes o fizeram...
Saí do consultório e sem me entender (naquele momento) chorei compulsivamente, até soluçava... Então, pessoas vieram me oferecer ajuda. Por algum tempo fiquei, literalmente, sem direção. Não sabia o que fazer... paralisei. Depois, respirando fundo, pensei na pessoa mais próxima daquele endereço que poderia me acolher; meu pai. Seu escritório era próximo. Fui andando. Quando o vi, chorei tudo de novo, sem conseguir explicá-lo. Quando me recuperei, narrei os fatos e ele me ajudou a organizar as ações que precisava realizar em tempo record. Ligamos para a minha mãe e ela me acompanhou até em casa para arrumarmos o necessário. Pedi ao meu marido que providenciasse a filmadora e outros acessórios. Nem ele acreditou que seria tudo para o dia em questão.
O tempo todo conversava com o Pedro, para que ele entendesse o que estava acontecendo e viria a acontecer. Pedia, ao mesmo tempo, que ele compreendesse e se preparasse. Pensar na retirada dele de dentro de mim sem que ele me desse algum sinal, sem que a natureza permitisse, me causava muito mal-estar. Imaginava o meu bebê dormindo, tranqüilo... imaginava o susto que ele viveria ao ser extraído...
Mas, seguimos a boiada...
No hospital vivemos a beleza de uma família rica em afeto (irmãs, cunhadas, cunhados, pais, avós, tias) todos aderiram à “urgência”... Não conseguiria planejar tão bem uma reunião assim. Foi o que fez a diferença e humanizou o nascimento do meu “pequeno”. Mal cabiam no tal “mineirinho”...
Ao ver a turma que foi nos acompanhar a dra. corou: “Nossa, isso tudo prá você... quanta responsabilidade!”
O meu marido acompanhou de dentro do bloco, suportando um ambiente que sempre o fragilizou e naquele momento, se descobriu um homem, que por um filho, enfrenta qualquer desafio.
Fiquei em outro mundo durante todo o processo... me conectei com o meu corpo e orei... orava e louvava a Deus... a natureza Divina... nenhum estímulo no bloco me despertou de minha interiorização.
Aproximando o momento do “nascimento” recebi um beijo, na testa, do anestesista que me fez “acordar”... Ele começou a narrar as últimas manobras da obstetra e quando o bebê chorou ele gritou: “PSB” – Perfeito, saudável, bonito!!! (20:50hs)
Sem poder ver o meu filho, escutei que ele era a cara do pai.
Pedro foi para longe de mim sofrer as intervenções de rotina, foi aquecido em panos, elevado pelo pediatra para a platéia do “mineirinho” (como em o Rei Leão), e então, veio para o meu peito. Vi nele um herói... me reconectei com ele em um profundo olhar... que olhar!!! Acariciei as mãozinhas e fui lhe dizendo sobre o quanto era bem-vindo e de como o amava. O papai acompanhava a tudo se derramando em lágrimas. Não amamentei na sala de parto, pois, sentia-me anestesiada até o pescoço... nem a respiração me parecia natural...
O pediatra da sala de parto tentou me fazer várias perguntas de rotina sobre dados do pré-natal para a ficha de Pedro... Não queria dar atenção a ele naquele momento único em que recebi meu filho em meus braços... aff... Nesse momento a GO me percebeu e teve o bom senso de alertar o dr. sobre os dados na ficha do pré-natal. Ela é muito detalhista e tudo o que ele precisava já estava anotado lá. Continuei “lambendo a cria” com o maridão.
Do meu colo, Pedro foi para o colo do pai que o apresentou aos parentes. Depois seguiram para o berçário. Solicitei que não demorassem a levá-lo para o quarto para que desse a primeira mamada. Fomos respeitados, enfim. Pedro retornou em 1 hora. A amamentação foi um sucesso desde a primeira pega. Fizemos o nosso alojamento conjunto contra as rotinas que o hospital indicava.
A obstetra nos visitou, rapidamente, pela manhã. Estava a caminho do aeroporto e começando o seu período de férias. Uma colega passaria para avaliar a alta. Deixou como conselho que eu aproveitasse a oportunidade do descanso e os cuidados do berçário, pois, a partir da alta o filho era só meu. Não gostou de saber que ele já tinha passado a primeira noite conosco. Indicou o livro “Nana nenê” e ponto.
Bem, ai já existia uma mãe... e um poder que ninguém mais iria me usurpar...
Na alta, meu marido foi ao berçário se despedir das enfermeiras, nossas cúmplices, e voltou todo satisfeito com os elogios à esposa: “Se todas as mulheres que passassem por aqui fossem como a sua, seria um prazer trabalhar... Dificilmente, temos mães tão dispostas aos cuidados com os bebês como ela. Vocês estão de parabéns!”
Como assim... fizemos a diferença porque cuidamos de nosso bebê na maternidade. Impomos o alojamento 100% conjunto (ou quase). Porque amamentei sem dificuldade...
A partir daí, quis ajudar as mulheres em suas gestações, partos, amamentação e educação dos filhos. Pesquisei projetos e a literatura em questão. Desenvolvi com uma equipe de saúde o Projeto Nascer – Desenvolvimento em família. Um projeto com o objetivo de informar e apoiar as famílias desde o desejo da gravidez.
Precisava ajudar outras mulheres... precisava refazer-me de minha ignorância e entender em que mundo estava vivendo... Porque perdi a direção de minha vida? O que mais precisava para voltar a conduzi-la sem correr novos riscos? Porque fui insuficiente?
Insuficiência foi o significante que me acompanhou por algum tempo, sendo conteúdo para minha análise... rsrsrs
Para muitos pareci vaidosa... exagerada...
Escutei muitas vezes que pensava demais e por isso sofria além do necessário.
Continuei frustrada com a cesárea por muito tempo. Talvez, ainda hoje. A cicatriz, admirada pela doutora, que se “encantava” por minha ótima cicatrização, estava ali para me lembrar a via de nascimento indesejada. Como gostaria de conseguir esquecer, fantasiar, ou não sofrer mais por este procedimento... por minha falta de maturidade... por ter sido tão passiva...
Pedro desenvolveu asma após uma bronquiolite aos 7 meses. Ainda hoje, lutamos com suas duras crises. Cada crise respiratória nos faz pensar que o nosso filho não conseguiu se beneficiar das vantagens que o parto natural o ofereceria.
Não poderia repetir... Aprendi que não devemos falar em arrependimentos, lamentarmos o menos possível. Avaliamos bem, temos uma opinião mais bem elaborada e então, ações mais responsáveis e satisfatórias quando podemos rever o vivido... principalmente, por nós mesmos. Um dia após o outro...
Peregrinei por diversos consultórios de ginecologistas obstetras para conseguir um que valorizasse e apoiasse partos normais. Ouvia que não teria esta opção, pois havia passado pela cesárea.
Quando engravidamos do Davi Lucas me lembrei de uma matéria na revista Crescer, onde uma leitora relatava a sua experiência de VBAC. Esta “pulga atrás da orelha” me motivou a ler mais, investigar na net os grupos apoiadores do parto normal. Inicialmente, tentei argumentar com a GO do pré-natal. Ela não me acompanharia. A cirurgia já estava agendada no início da gestação. Inclusive, o retorno para a retirada dos pontos. Não poderia entrar em trabalho de parto; risco de ruptura uterina... O fantasma do líquido amniótico retornava... placenta amadurecendo antes... etc. Ela chamava a minha placenta de placentinha.
Em contato com o grupo da Ong Bem Nascer, recebi diversos esclarecimentos, de doulas, obstetras e enfermeiras obstetras. Pessoas abençoadas que me ajudaram a escrever uma nova história...
O pré-natal sofreu uma mudança radical! Troca de GO, medicina por evidência, mais informação em livros e vídeos (Michel Odent – O Renascimento do Parto e A Cientificação do amor-, Nascendo no Brasil, Um dia de Vida, etc), fiz pilates (recomendo). Senti-me mais saudável, segura e capaz.
Realizei um chá de bebê fantástico, onde nós mulheres vivenciamos o resgate da nossa ancestralidade, força e natureza em uma sessão de Biodanza (quem não conhece, vale a pena conferir). Depois, vivi um divertidíssimo com a família, medindo a barriga, fazendo os convidados dançarem e atuarem como personagens infantis. Curti tudo com a alegria de quem sabia e confiava no novo caminho.
Sempre tive o apoio do meu marido que se informava como eu. Interessado por tudo, ele dava aula aos outros que nos questionavam sobre as novas decisões...
Enfrentamos a todos com bom humor sem permitir qualquer situação que pudesse nos minar.
Combinei com a Enfermeira Obstetra que ela me acompanharia em casa para que eu pudesse ir na hora ideal para o Hospital (não sabia se iria para a Casa de Parto, pois tinha uma cesárea anterior). Portanto, elaborávamos planos A, B... rsrsrs... Mas, queríamos a garantia do Trabalho de Parto e Parto humanizados.
O maridão programou as férias para o final da gestação, pois queria me acompanhar de pertinho e estar bem à disposição. Arrumamos o cantinho do nosso bebê BIS (como brincávamos) com o mesmo tema do quartinho do Pedro (mamíferos). Namoramos bastante (parte dos hots – rsrsrsrs), conversamos muito, imaginando como seria o momento, o grande dia!
As vésperas de completarmos 40 semanas (em uma quinta-feira), o GO que nos acompanhava viajou a trabalho e deixou um colega (da mesma linha de assistência) à disposição para qualquer urgência. Na ocasião, ele brincou que era para eu falar para o Davi esperar ele retornar, que ele queria acompanhar, pois havia acompanhado o pré-natal, etc... Imaginei que fosse ficar um tanto aflita com esta ausência. No entanto, surpreendi-me com a tranqüilidade e a confiança que conquistava dia-a-dia, auxiliada pelo dr., pelas doulas, amigas (virtuais) e a maravilhosa enfermeira que já me visitava e encorajava. Era o meu “empoderamento”...
Passamos um ótimo fim-de-semana. Arrumei as bolsas para a maternidade, as lembrancinhas, compramos algumas coisas para a hora do TP (sucos, biscoitos água e sal, chocolate, gatorade, etc). Acabei de escrever meu plano de parto (inspirado pelos postados no grupo da Ong Bem Nascer) e continuei me deliciando com a espera... nunca achei tão bom esperar...
Vinha tendo contrações indolores (BHs) há alguns meses e mais nas últimas semanas. Na madrugada de domingo para segunda elas ficaram mais intensas, acompanhadas de uma pequena cólica. Apresentavam intervalos irregulares (entre 7 min, 8 min – sem ritmo definido). Pela manhã vi sinal de sangue na calcinha e percebi um pequeno corrimento (cólo se apagando). Fiz um último ultrassom que sinalizou 2 circulares de cordão (sem susto). Continuei com as contrações, porém mais espaçadas e fraquinhas. Elas se apresentaram dessa forma, tímida, ao longo do dia. Entre 19hs e 19h30min, enquanto repousava ao lado do meu marido, senti uma contração mais forte e “escutei” ou senti um “ploc”- rsrsrs. Era a bolsa se rompendo. Ligamos para a enfermeira que nos visitou por volta das 23hs. Em um toque ela percebeu pouco mais de 1 cm de dilatação. Estava com rompimento precoce de membranas e não havia engrenado o TP (trabalho de parto). A EO auscultou o coração do bebê, que estava ótimo! O aspecto do líquido amniótico também tranqüilizava; então, ela nos aconselhou permanecermos em casa e aguardarmos a evolução.
Nesse tempo, ligamos para os meus pais que foram prá minha casa. Minha mãe veio com a bagagem. Sabia que permaneceria conosco e cuidaria do Pedro Emanuel.
A madrugada foi longa. As contrações se intensificavam, mas, o TP não engrenava. Não dormi. Já não dormia há mais de 48 horas.
A nossa querida EO retornou pela manhã, cedinho... que bom!
Ela auscultou o coração do bebê. Dessa vez meu marido e minha mãe se assustaram, pois, esse tempo se alongou... custamos a “conferir” o coração... Ufa! Estava ótimo! Incrível, continuei em paz... Estava muito conectada com o meu filho e sentia que ele estava bem e querendo a mesma coisa que eu... tudo poderia continuar como o planejado, sonhado, desejado...
Ligamos para o GO que indicou o mesmo que a EO; deveríamos ir para a Casa de Parto. Lá eu poderia ficar o tempo todo assistida por uma EO, sendo estimulada pela equipe, que faz a torcida necessária para que tudo aconteça sabiamente como a natureza se faz.
A bagagem para a Casa de Parto do Sofia foi grande... Incluímos som portátil, ventilador, cds (missas cantadas em estilo gregoriano – “Vozes da tranqüilidade” e músicas de louvor em Sax – Brás Os – Canção Nova); bolsa para compressa, além das bolsas e comidinhas já indicadas, chocolate Bis para lembrancinha, etc.
Pedro e minha mãe se despediram da minha barrigona e lá fomos nós...
Fomos muito bem recebidos na Casa de Parto. A EO de plantão, mais uma que foi plantada para sempre em meu coração, foi incansavelmente, presente e cuidadosa... doula e amiga. Como o TP não engrenava, chegamos a sofrer com o fantasma da cesárea. Tinha medo de começar a sofrer intervenções que bloqueassem o processo (antibiótico via cateter com 18 horas de bolsa rota, soro com ocitocina, anestesia, etc). Ela, com informações precisas, assim como o GO indicado pelo que me acompanhava, nos ajudaram a caminhar com o nosso projeto. Ligaram para o GO responsável que autorizou a espera das 24hs (seguindo a literatura) para que eu entrasse em TP ativo (2 contrações de pelo menos 1m20s em 10 min). Só então entrariam com o antibiótico por causa da bolsa rota.
Foi maravilhoso passar este tempo com o marido e a equipe da Casa; foram momentos íntimos, em que conversamos, nos sintonizamos e rimos. Recebi (da equipe da Lília – EO, parteira, raizeira... rsrsrs) massagens nas costas, nos pés, homeopatia, aromatização do quarto, escalda pés. Rebolei, caminhei, acocorei, usei o espaldar para apoio na hora das contrações, orei. Deitada não me sentia bem.
Anoiteceu e nada do TP engrenar.
Colocaram o cateter para o antibiótico.
Meus pais trouxeram o Pedro para uma visita. Ficaram surpresos ao me encontrar. (Me presentearam com uma medalhinha de Nossa senhora do Bom Parto. Levei-a comigo pendurada no pescoço)
“Achamos que você estaria em um hospital, em um quarto de enfermaria lotado...”
“Aqui é ótimo!”
Fizeram um “tour” pela Casa de Parto e se encantaram.
Ficaram felizes com o meu estado de felicidade, também.
Confiaram... Era a minha escolha...
Meu TP engrenou quando a família estava reunida (+ - 21hs).
Será que ver o Pedro me liberou... rsrsrsrs
Realmente, vê-los me trouxe mais alívio.
Estava pronta!
Pedro queria ficar conosco. Desde que o assunto parto começou a ser falado lá em casa, ele nos pedia para participar.
“Porque você não ganha o Davi aqui em casa?”
“Quero ver o Davi nascer...”
Durante a gestação, todos os desenhos dele tinham um casulo desenhado. Seu principal interesse, a partir de então, se tornou a natureza e em destaque, a natureza humana. O presente que ele escolheu para o dia das crianças foi um livro super bacana sobre o corpo humano chamado VIVO.
Pedro se informava e se preparava, também.
Porém, muito compreensivo, ele foi embora com os avós.
Pouco depois que ingressei na fase ativa do parto, recebi a notícia, que o médico que me acompanhou no pré-natal, estava a caminho da maternidade.
Mais um para aumentar a torcida!!! Rsrsrs
Por volta das 23hs, ele chegou e ao me examinar estava com 3 cm de dilatação. Desanimam...
Não era hora de desanimar... estava envolvida na partolândia...
Meu “marido-doulo” me massageava a cada contração (2 em 10 min)
O pior momento era o que eu precisava me deitar para a ausculta do coração do bebê. Aí, a contração doía sem medida (mesmo amparada e massageada pelo maridão). De outra maneira, agachava, rebolava, era massageada e, tudo dava certo.
Exceto quando era necessário auscultar o coração do bebê, tivemos muita privacidade. A placa na porta do quarto (EM TP, não incomodar) destacava o respeito ao nosso tempo e a nossa intimidade. Meu marido e eu dançamos, nos abraçamos e beijamos durante o TP. Tudo era diferente! Tinha som, cor, cheiro, olhar e pele diferentes... A ocitocina dominava todos os nossos sentidos... O hormônio do amor... Sentimos a força do nosso amor... Meu marido estava ali; o macho diante de sua fêmea parindo... ambos em defesa da cria... instinto e intuição...
Ah, a intuição... Foi o sentido que mais nos dominou. Meu marido, além de mim, confiou muito e me deu força quando eu a achava perdida. Rezamos muito... nossa confiança estava em Deus.
Preciso ressaltar que acreditar no mistério fez toda a diferença para que percorrêssemos esse caminho. Destituir-me do poder, de qualquer controle era necessário. Parece contraditório quando na verdade o que se propõem é o nosso empoderamento. Senti-me mais perto da mulher, fêmea, mamífera, quando fui toda, natureza...
Entendi que assim não existe sofrimento... É racionalizar que faz sofrer...
Coloquei-me nas mãos de quem é o Senhor... É Ele quem a tudo conduz...
Divina Natureza... Em seu tempo, tempo “Kairós”, tudo pode acontecer...
Inspiravam-me as lembranças de tantas mulheres que pariram em minha ancestralidade. Era ainda mais emocionante a certeza de que assim foi com Maria... sempre meu modelo de gente. Ela trouxe o Salvador de parto natural, em meio aos bichos... Como diz Michel Odent: ...”uma das maiores odes ao parto”...
Por volta das 3hs da madrugada o dr. Parteiro fez um novo exame que detectou 5 cm. Ele disse que eu estava indo bem... Suspirei fundo...
As contrações já eram 3 (três) em 10 min. O sono e o cansaço me dominavam. Mas, neste ritmo era impossível dormir. Segurava no espaldar para não cair (de sono, no sono) no pequeno intervalo entre as contrações. Encheram a banheira para que eu pudesse buscar alívio.
Ouvi que a EO que me acompanhou em casa ligou pedindo notícias. São as pessoas fazendo a diferença em nossa vida.
Fui, de biquíni (hehehe), para a banheira. Que delícia! Relaxei... sem dormir... As dores são realmente, aliviadas. Perdi a noção do tempo que fiquei ali. Por mim, não sairia mais. Mas, ainda era cedo...
Voltei para o quarto. Entre 5 (cinco) e 6 (seis) horas da manhã, “perdi as forças”. Tremia dos pés a cabeça (e não era de frio) – Descompasso total. Meu marido (me acompanhando desde o início e exausto) me aconselhou a fazer uso de uma analgesia química. Estava fraca e sabia que tinha mais algumas horas de trabalho. Também, sabia que precisaria de mais forças para este tempo que se aproximava. Na verdade, estava acostumada e recebendo bem cada contração. Porém, não suportava mais o sono, a privação desse e o cansaço físico.
Caminhei amparada pelo meu marido e a EO (linda) até a maternidade do Sofia para receber a analgesia. Fiquei um pouco preocupada e triste de precisar fazer uso dessa intervenção... Fiquei preocupada de estar vivendo um processo tão longo... mas, sabia que tudo daria certo.
Foi tranqüilo receber a Peridural de um anestesista conectado ao processo humanizado do nascimento. Ele foi super carinhoso e cuidadoso. A dose foi medida para que eu pudesse deambular. Após 15 minutos de observação, voltei caminhando para a Casa de Parto. Colocaram o soro. Neste momento, consegui me deitar e dormir.
Acordei sentindo, novamente, as contrações (4 em 10mins). No entanto, era uma nova mulher... Forças renovadas! Podia começar tudo de novo... rsrsrs.
Depois, percebi que o sono reparador durou menos de 1(uma)hora.
Como era manhã (de quarta – 05 de novembro) ligamos para os meus pais virem com o Pedro Emanuel para que ele estivesse junto de nós. Tentaríamos realizar o desejo dele em participar do nascimento do irmão.
Um novo exame por volta das 8hs detectou entre 9 e 10cm de dilatação.
Meus pais chegaram com o Pedro.
Fui para o chuveiro.
Fiquei na bola.
Acocorei.
Entrei na banheira, onde planejei ganhar o meu bebê, por volta de 8:30hs. Meu marido entrou na banheira para me amparar.
A EO, Lília, me ofereceu mais homeopatia para que eu tomasse entre as contrações (puxos involuntários) da fase do expulsivo.
A EO (parteira) me indicou uma maneira de soprar (tipo assobio) que auxilia na força, localizando-a onde era necessário fazer.
Meu pai filmava. (Ele nunca imaginou participar desse momento. Mas, foi totalmente, envolvido por tudo e todos. Segundo a minha mãe, o pai de 4 (quatro) mulheres, é um novo homem. Transformado, renascido...)
Minha mãe e Pedro ficaram ao meu lado me acariciando e dando as mãos.
Pedro fazia força junto comigo.
Eu falava: “Vem, Davi!” “Vem, meu filho!”
Pedro repetia: “Vem, Davi!”
Entendi que este momento do expulsivo exige muito mais da mulher... Precisamos estar, ainda, mais conscientes do corpo... ter e fazer força quando o corpo pede, estar ativa, bem disposta. É uma dor que te desinstala, dá energia e movimenta... Uma dor com sentido e que dá sentido.
Minha mãe cantava hinos de louvor... “Deixa a luz do céu entrar... deixa a luz do céu entrar... Abre bem as portas do teu coração e deixa a luz do céu entrar...”
Embora, o Davi apresentasse bradicardia nas contrações, os batimentos ficavam regulares nos intervalos. Assim, tudo ia acontecendo...
Senti a cabecinha do Davi coroar. Acariciei o cabelinho. Vi, por um espelho que o GO (parteiro) posicionou que o momento chegava.
O dr. (parteiro) amparou o períneo.
Mais 2 forças e...
... as 09:16hs nasceu o Davi Lucas Silveira Ivo...
Foi uma explosão (“bomba” de endorfina) de alívio... alegria... amor...
O dr. Parteiro (rsrsrs) retirou as 2 circulares (apertadas) de cordão e me entregou ele. Nosso lindo estava cansadinho, ficamos estimulando ele ali, coladinho em mim, enquanto preparavam o pai para cortar o cordão. Depois que cortou ele precisou de ser aquecido e mais estimulado (apgar 7) e então, chorou forte (apgar 9).
Pedro Emanuel foi atrás, acompanhando o irmão.
“O que você vai fazer com o meu irmão?”
Saí da banheira para a descida da placenta e avaliar o períneo. Sem episiotomia, tive uma pequena laceração (1º. Grau). Ganhei 2 (dois) pontos bem superficiais (só mucosas).
Enquanto, o Davi recebia os estímulos, meu marido permaneceu ao meu lado e me abraçou. Quando ouvimos o choro alto dele, choramos juntos, compulsivamente, como crianças, de pura emoção e alívio. Foi um choro gostoso... cheio de sintonia e cumplicidade. Emocionou a todos.
Davi voltou para mim enquanto recebia a sutura. Depois, fomos para o quarto e ficamos deitados, eu, Davi e Pedro. Meu marido foi convidado a me servir uma deliciosa canja (escolhida por mim, no cardápio do Sofia)... Que lindo! Que delícia!
Depois ficamos lambendo nossa cria. Só Xande e eu.
Davi e o pai dormiram bem. Eu, hiper-ocitocinada estava alerta, rindo à toa; recebendo as visitas... querendo falar... super empolgada!!! Quanta felicidade!!!
Dei o primeiro banho no meu bebê.
Da pediatria ele recebeu, por protocolo a 1ª. Dose da Hepatite B, a BCG, e vitamina K. Consegui evitar o nitrato de prata nos olhos.
Saímos dali deixando muito de nós e levando todos em nossos corações. Quando me lembro da equipe, parece que é parte de minha família... É sentimento de gratidão, carinho e admiração. Sentimos vontade de estender nossa estadia, rsrsrs... Sentimo-nos em casa.
Todos fazem parte do nosso coração.
Quero que entendam que tudo aconteceu porque tive coragem de mudar... porque busquei e encontrei pessoas (profissionais) que amam e se dedicam ao que fazem... que respeitam a vida e dão à vida em vida...
À Nágela, Míriam, Lucas, Lília, Maeve, Ana Lídia (e outras técnicas de enfermagem), anestesista (me lembrem o nome...), Rebeca (MSN), Letícia (MSN), Sybille, Angelita, Hemmerson... A ONG Bem Nascer, lista Parto Nosso, meus pais, meu pequeno Pedro Emanuel e meu adorável marido,meu muito obrigada! Nosso muito obrigado!
Acredito mais na humanidade por causa de vocês.

Daniela Silveira

quarta-feira, 16 de setembro de 2009


Vínculos de amor


Mulheres que têm uma estrutura de apoio para lidar com as atividades diárias conseguem ser mães e profissionais ao mesmo tempo.

Mais experiente, a cabeleireira Maria Aparecida Fernandes está aguardando a chegada do quarto filho para o início de fevereiro, mas não se apavora tanto como da primeira vez. Ela conta com a ajuda do marido e dos outros três filhos, de 15, 10 e 6 anos. “Eles colaboram muito. Lavam os copos e os pratos que usaram, penduram a toalha usada, guardam as roupas no armário, para manter a casa em ordem.”
Com a colaboração de cada um, Aparecida pode educar os filhos e continuar trabalhando, como faz há 17 anos. “Depois de se profissionalizar no Senac e de fazer cursos de atualização na área, ela não se vê sem o trabalho no Pampulha Iate Clube (PIC), onde conseguiu organizar seus horários para continuar sendo mulher e mãe. “Amo o que eu faço, sendo que 50% da minha satisfação na vida vem da profissão e a outra metade da minha família.”
Os horários de Aparecida são bem flexíveis, já que trabalha às quintas, sábados, domingos e feriados. “Às segundas, terças, quartas e sextas estou disponível para ficar em casa e cuidar de tudo, sempre com o apoio incondicional do marido, que, além da disciplina adquirida no Corpo de Bombeiros, sabe educar os filhos. “Ele é um super pai e marido. Eu vou ter a Aline e entregar para ele, que é o homem que eu pedi a Deus.”
Casada pela segunda vez com Luiz Carlos, de 42 anos, ela vai ter outro apoio importante, assim que nascer Aline. “Vamos voltar para Pedro Leopoldo, na Grande BH, onde mora toda a minha família. Construímos uma casa bem perto da minha mãe e da minha irmã. Estou realizando um sonho, pois posso trabalhar em paz.”
Ela vai ficar em casa os quatro meses de licença-maternidade, mas nem pensa em parar de trabalhar por mais tempo, “pois gosto de ter o meu dinheiro e a minha independência”, diz ela, que nunca escondeu a realidade dos filhos. “Acho até que sou um exemplo para eles, mas procuro conversar muito, explicar para eles da necessidade de trabalhar. Nunca deixei nenhum filho meu chorando em casa.”
Sem saber, Aparecida conseguiu o que muitas mães sonham: a ajuda prática e emocional de toda a família, para exercer a maternidade e sua profissão, sem tanta culpa e cobrança. É o que constata a psicóloga Daniela Silveira, do Projeto Nascer. “As mulheres têm que se preparar desde o princípio da gravidez. Precisam se organizar, saber com quem vão poder contar, se com a ajuda da família, de babás, creches, escolas, pois a natureza é sábia. O bebê leva nove meses para nascer e para que a mãe possa ir se acostumando com a nova vida. Ela não pode deixar tudo para os últimos 15 dias da licença-maternidade.”
Se o papel da mulher mudou na sociedade, é preciso também transformar o do pai. “A mãe não tem que fazer tudo sozinha. Precisa do apoio do companheiro, de uma vizinha, da mãe e da sogra. Se for mãe sozinha, pode, por exemplo, morar com uma amiga que também está vivendo a mesma situação. É preciso aprender a fazer laços afetivos e solidários, saber que existem pessoas que podem ampará-la, em caso de necessidade.”
Sem culpa
Ela destaca ainda que a mãe tem sempre a impressão de que só ela saberá cuidar, mas há grande diferença entre o ideal e o possível. “É preciso adaptar-se e deixar a culpa de lado, pois uma mãe infeliz e angustiada passa esses sentimentos para a criança, interfere na relação. Ela só vai conseguir dar o melhor de si, se estiver bem consigo mesma.”
Daniela diz para as mães que errar é normal. “Se a creche não está boa, se a babá não deu certo, é só mudar, repensar.” Mas lembra que deixar a criança aos cuidados da família é sempre melhor, pois “ela poderá compartilhar os mesmos valores”. Caso contrário, procurar pessoas e lugares que estejam próximos desses valores e ter um tempo para o bebê. “Pode ser um banho, uma massagem, ouvir uma música, contar histórias, mas, sem fazer outras coisas ao mesmo tempo, sem dispersar a atenção, atendendo celular, vendo televisão ou desempenhando outras tarefas.”
Não existe receita nem regras para as mães que estão voltando ao trabalho: “Elas têm que saber de seus limites, do que dão conta ou não. É um processo de construção, de descoberta e de autoconfiança”. (DJ)

sábado, 12 de setembro de 2009



Vida


Separação civilizada



Escritor lança uma espécie de manual de etiqueta, para casais que optam pelo fim do casamento sem ressentimentos

Mágoas, decepções, expectativas frustradas, desamor, vontade de vingar o orgulho ferido. Em meio a esse turbilhão de sentimentos que, muitas vezes, envolve casais que se separam, sobram os filhos. E é justamente pensando no bem deles (e para tranqüilidade da nova família) que pai e mãe devem seguir as regras da boa convivência ou o que atualmente passou a ser chamo de etiqueta da separação.
Essa etiqueta envolve, acima de tudo, sabedoria do casal para negociar, como recomenda o escritor Marcos Wettreich, autor do livro Manual de mães e pais separados - guia para a educação e a felicidade dos filhos, lançado recentemente pela Ediouro. A partir de sua própria experiência de separação, ele mostra os caminhos de um divórcio menos traumático e conturbado.
Pai de gêmeos, Marcos está longe de fazer apologia do fim do casamento. Pelo contrário, considera que, idealmente, a relação deve ser feita para durar. Entretanto, se a situação do casal é ruim e não há meios de resolvê-la, o melhor é desatar os laços, de forma a afetar as crianças o mínimo possível.
Não que isso seja fácil, mas algumas de seus conselhos podem ser úteis, na hora de estabelecer uma nova rotina nos relacionamentos . “Com menos culpa e agindo de maneira correta e respeitosa, a separação não precisa ser, necessariamente, ruim. A nova família terá ex-marido e ex-mulher, mas jamais ex-pai e ex-mãe”, pondera.
Para facilitar, os pais devem pensar que são sócios no bem mais precioso que têm: os filhos. Sendo assim, o mal que um faz ao outro, sempre respinga na criança. É muito comum, por exemplo, situações como a do menino João, de 7 anos, que reclama sempre que o pai não gosta mais dele, nunca telefona, nem aparece para visitas. No entanto, não desconfia de que a mãe intercepta ligações do pai, impede que a família dele se comunique com a criança e tenta punir o ex-marido, impedindo-o de ver o filho. Em situações semelhantes, como acredita a psicóloga Daniela Maria, quem acaba sendo castigada de verdade é a criança que, além de sofrer com a separação, é obrigada a conviver com a ausência do pai.
Ser considerado um pai ausente foi o que o instrutor de auto-escola Carlos Wellington Lima, de 34 anos, sempre quis evitar, desde que se separou da mulher, há pouco mais de dois anos. Para preservar o relacionamento com o filho Marco Túlio da Silva Lima, de 6 anos, ele mantém um diálogo franco com o menino e não deixa de participar de sua vida. “Apesar da separação, ele continua sendo a coisa mais importante para mim. Faço de tudo para poupá-lo de tormentos”, diz.

Vanessa Jacinto