Vínculos de amor
Mulheres que têm uma estrutura de apoio para lidar com as atividades diárias conseguem ser mães e profissionais ao mesmo tempo.
Mais experiente, a cabeleireira Maria Aparecida Fernandes está aguardando a chegada do quarto filho para o início de fevereiro, mas não se apavora tanto como da primeira vez. Ela conta com a ajuda do marido e dos outros três filhos, de 15, 10 e 6 anos. “Eles colaboram muito. Lavam os copos e os pratos que usaram, penduram a toalha usada, guardam as roupas no armário, para manter a casa em ordem.”
Com a colaboração de cada um, Aparecida pode educar os filhos e continuar trabalhando, como faz há 17 anos. “Depois de se profissionalizar no Senac e de fazer cursos de atualização na área, ela não se vê sem o trabalho no Pampulha Iate Clube (PIC), onde conseguiu organizar seus horários para continuar sendo mulher e mãe. “Amo o que eu faço, sendo que 50% da minha satisfação na vida vem da profissão e a outra metade da minha família.”
Os horários de Aparecida são bem flexíveis, já que trabalha às quintas, sábados, domingos e feriados. “Às segundas, terças, quartas e sextas estou disponível para ficar em casa e cuidar de tudo, sempre com o apoio incondicional do marido, que, além da disciplina adquirida no Corpo de Bombeiros, sabe educar os filhos. “Ele é um super pai e marido. Eu vou ter a Aline e entregar para ele, que é o homem que eu pedi a Deus.”
Casada pela segunda vez com Luiz Carlos, de 42 anos, ela vai ter outro apoio importante, assim que nascer Aline. “Vamos voltar para Pedro Leopoldo, na Grande BH, onde mora toda a minha família. Construímos uma casa bem perto da minha mãe e da minha irmã. Estou realizando um sonho, pois posso trabalhar em paz.”
Ela vai ficar em casa os quatro meses de licença-maternidade, mas nem pensa em parar de trabalhar por mais tempo, “pois gosto de ter o meu dinheiro e a minha independência”, diz ela, que nunca escondeu a realidade dos filhos. “Acho até que sou um exemplo para eles, mas procuro conversar muito, explicar para eles da necessidade de trabalhar. Nunca deixei nenhum filho meu chorando em casa.”
Sem saber, Aparecida conseguiu o que muitas mães sonham: a ajuda prática e emocional de toda a família, para exercer a maternidade e sua profissão, sem tanta culpa e cobrança. É o que constata a psicóloga Daniela Silveira, do Projeto Nascer. “As mulheres têm que se preparar desde o princípio da gravidez. Precisam se organizar, saber com quem vão poder contar, se com a ajuda da família, de babás, creches, escolas, pois a natureza é sábia. O bebê leva nove meses para nascer e para que a mãe possa ir se acostumando com a nova vida. Ela não pode deixar tudo para os últimos 15 dias da licença-maternidade.”
Se o papel da mulher mudou na sociedade, é preciso também transformar o do pai. “A mãe não tem que fazer tudo sozinha. Precisa do apoio do companheiro, de uma vizinha, da mãe e da sogra. Se for mãe sozinha, pode, por exemplo, morar com uma amiga que também está vivendo a mesma situação. É preciso aprender a fazer laços afetivos e solidários, saber que existem pessoas que podem ampará-la, em caso de necessidade.”
Sem culpa
Ela destaca ainda que a mãe tem sempre a impressão de que só ela saberá cuidar, mas há grande diferença entre o ideal e o possível. “É preciso adaptar-se e deixar a culpa de lado, pois uma mãe infeliz e angustiada passa esses sentimentos para a criança, interfere na relação. Ela só vai conseguir dar o melhor de si, se estiver bem consigo mesma.”
Daniela diz para as mães que errar é normal. “Se a creche não está boa, se a babá não deu certo, é só mudar, repensar.” Mas lembra que deixar a criança aos cuidados da família é sempre melhor, pois “ela poderá compartilhar os mesmos valores”. Caso contrário, procurar pessoas e lugares que estejam próximos desses valores e ter um tempo para o bebê. “Pode ser um banho, uma massagem, ouvir uma música, contar histórias, mas, sem fazer outras coisas ao mesmo tempo, sem dispersar a atenção, atendendo celular, vendo televisão ou desempenhando outras tarefas.”
Não existe receita nem regras para as mães que estão voltando ao trabalho: “Elas têm que saber de seus limites, do que dão conta ou não. É um processo de construção, de descoberta e de autoconfiança”. (DJ)

Esta postagem, também, é parte de uma matéria desenvolvida para o caderno Bem Nascer do jornal Estado de Minas em que pude dar a minha contribuição.
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