quinta-feira, 10 de setembro de 2009


Saúde Pública - Comportamento
Dias difíceis para os homens
Pesquisas mostram que os pais também podem ser vítimas da depressão pós-parto


A depressão pós-parto, que afeta de 10% a 15% das mulheres, deixou de ser encarada como um problema exclusivamente feminino. Cientificamente, já está comprovado que os homens também padecem do mal. Embora não existam estudos no Brasil, na Inglaterra há, inclusive, estatísticas. De acordo com uma pesquisa inglesa, realizada com 8,4 mil homens, 3,6% dos pais apresentam sintomas da depressão.
A pesquisa foi conduzida pelas universidades de Oxford e Bristol e os especialistas constataram que, oito semanas depois do nascimento do bebê, uma parcela dos pais apresentava características, como ansiedade, irritabilidade e desesperança, configurando um quadro depressivo.
Para a psicóloga Daniela Maria Teixeira Silveira, os números podem ser ainda maiores, se for levado em conta o fato de que os homens tendem a esconder seus problemas, não falar deles ou admiti-los. Além disso, como o foco do nascimento do filho está sempre mais voltado para a mulher, o homem ainda não conseguiu espaço (ou não criou o hábito) para falar de si.
Os motivos da depressão masculina com a chegada do filho são tão complexos quanto os femininos. Se as mulheres, por um lado, experimentam mudanças no corpo e alterações hormonais que ocorrem durante toda a gestação de maneira intensa, favorecendo um quadro de depressão, no caso dos homens, pode-se dizer que o “susto” é maior, pois eles só vão concretizar a paternidade na hora do nascimento da criança.
A partir daí, muitas de suas angústias, assim como ocorre com as mães, têm a ver com insegurança, medo do novo, ou de não ser o melhor pai do mundo. Nessa fase, o homem também pode resgatar conflitos de sua vivência como filho.
Problemas no trabalho também podem ser desencadeadores da depressão paterna. Segundo Daniela, diversas pesquisas têm associado sintomas de depressão pós-parto nos homens a crises no emprego. Em casos de gravidez não-planejada, a incidência tende a ser maior, já que o filho passa a ser sinônimo de uma nova e indesejada rotina.
Umas das maiores dificuldades para resolver o problema da depressão pós-parto masculina é o preconceito. A sociedade ainda não permite que o homem chore ou sofra e ele tem dificuldades para manifestar seus sentimentos e buscar ajuda. Muitos pais, inclusive, têm dificuldade em identificar os sintomas e resolvem ignorá-los.
Enquanto as mulheres tendem a ficar apáticas e negar a importância da maternidade, os homens costumam fugir do foco do problema e passam cada vez mais tempo fora de casa. “Tanto no caso de homens quanto no de mulheres, fingir que o problema não existe só piora a situação”, alerta Daniela. Segundo ela, se a depressão não for devidamente tratada, costuma surgir uma série de problemas no casamento e em outros relacionamentos sociais. Não é incomum, no caso de depressão pós-parto masculina, que os homens comecem a flertar com outras mulheres.
O motivo é que eles podem se sentir excluídos da casa, pelo fato de que a mulher costuma se dedicar quase integralmente ao filho. “Cansada e cheia de afazeres, ela pode mesmo deixar o companheiro de lado. O resultado pode ser um pai com ciúmes do filho”, ressalta a especialista.
PREVENÇÃO
Independentemente de afetar o homem ou a mulher, a melhor saída para evitar a depressão pós-parto é a prevenção que, segundo Daniela Maria Teixeira Silveira, deve começar quando o casal manifesta o desejo de ter um filho. Prevenir, no caso, é se preparar para o bebê que vai chegar, procurando juntar informações – que vão facilitar as rotinas com o bebê e facilitar a compreensão das mudanças em todos os níveis – e sabendo identificar a diferença entre sonho e projeto baseado na realidade. “O casal tem que se preparar no que diz respeito à estrutura da casa, finanças e emocionalmente.”
Diálogo é fundamental e o casal deve estar em sintonia. Isso evita situações de desconfiança, de incompreensão e de cobranças excessivas. Também permite que haja parceria na gestação. O pai deixa de ser apenas uma testemunha, para realmente participar de todo o processo. Existem homens que vivem tão plenamente a gestação do filho, que chegam a ter sintomas como enjôo, ganho de peso, sono em excesso etc.
Entretanto, se não foi possível evitar a depressão, a dica é não hesitar em procurar ajuda (especializada ou de amigos que vivem os mesmos problemas). “O que mais conta é a maturidade do casal para resolver as situações. No mais, é encarar o nascimento de um filho, o tornar-se pai ou mãe, com a naturalidade própria desses acontecimentos, que fazem parte da condição humana”, ensina.
Foram justamente maturidade e a procura de um psicólogo que livraram o policial Bruno Lanna de Carvalho, de 28 anos, de viver um quadro de depressão. Ele teve estresse pós-parto depois que o filho Gustavo, hoje com seis meses, nasceu. O menino tinha problemas cardíacos, fez várias cirurgias e chegou a ser desenganado por alguns médicos. Depois foram os longos 21 dias de espera para que o bebê pudesse ser levado para casa.
Segundo Bruno, foram tempos de muita ansiedade e ele só não desmoronou para preservar a mulher. “Eu participei de tudo, sonhava muito com a chegada do Gustavo e time muito medo de que a previsão dos médicos se confirmasse. Foi muito importante ter recebido ajuda psicológica para agüentar o baque e ter a oportunidade de ficar algum tempo em casa, para pensar nas formas de administrar os problemas. Felizmente deu tudo certo: meu filho está vivo e saudável”, conta.


Vanessa Jacinto

Um comentário:

  1. Esta também é uma matéria que a jornalista Vanessa Jacinto (Estado de Minas)pediu a minha contribuição.

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