sexta-feira, 11 de setembro de 2009


Trabalho


Entre dois mundos

Depois de ser mãe, a volta ao trabalho é sempre um desafio para mulheres que consideram a profissão um direito adquirido

Um momento inquietante na vida de uma mulher que acaba de ser mãe: a volta ao trabalho, com o fim da licença-maternidade, quatro meses depois que o bebê veio ao mundo. É o caso da administradora Cibele Ramos de Freitas Társia, de 26 anos. Ela só tem olhos para a filha Ana Carolina, de 3 meses. “É como se eu estivesse numa bolha de proteção contra o resto do mundo, cheirando a neném, com os horários regulados pela fome e pelo sono dela e sem prestar muita atenção no resto.”
O relógio de Cibele é o sinal que a filha dá de duas em duas horas para ser amamentada. “É uma ligação tão forte, simbiótica, que, nos primeiros dias de vida, eu achava que éramos uma só pessoa. Sei que o retorno vai ser difícil, mas gosto do meu trabalho e até já fiz a experiência de visitar os colegas no departamento de logística, no qual trabalho”, comenta. “Foi muito bom, todo mundo fez festa, me recebeu superbem, mas ainda não estou pronta. Por enquanto, só penso em dar colo, trocar fralda, amamentar, brincar, rir com as gracinhas que ela já faz, conhecer mais a minha filha que a cada dia está mais linda. Ser mãe foi uma das experiências mais ricas e transformadoras da minha vida.”
Além da ajuda do marido, o médico anestesista Rodrigo de Almeida Társia, de 35 anos, Cibele já tem uma babá, que está sendo preparada para o momento em que ela terá que voltar ao trabalho. Privilegiada, conta também com a ajuda da mãe e da sogra, que vão se revezar com a babá, enquanto ela estiver no trabalho.
Como Cibele, a maioria das mulheres enfrenta esse dilema. Algumas com mais ou menos culpa, muita cobrança e até medo de não dar conta das múltiplas funções. “Separar-se do bebê depois de uma convivência tão íntima é uma tortura. Mas o papel da mulher hoje não é só de dona de casa, mãe e mulher. Ela conquistou novos lugares e ser profissional é um deles”, diz a psicóloga Daniela Silveira, responsável pelo Projeto Nascer – Desenvolvimento em Família, que conta com uma equipe multidisciplinar, para orientar os pais desde o planejamento de um filho, passando pela gestação, primeira infância, entrada na escola e por todos os problemas de desenvolvimento da criança.
Quando pensou no Projeto Nascer, Daniela estava grávida de Pedro, hoje com 3 anos e 6 meses, sendo motivadajustamente pelos conflitos que enfrentava na época, antes mesmo de ele nascer. “Tive que redimensionar a minha vida e o meu tempo. Comecei mexendo nos meus horários, espaçando os intervalos entre os clientes, para poder ir em casa amamentar. A gente tem que se adaptar.”
Ela lembra, porém, que toda mudança gera um conflito. “Sentir culpa é normal, porque a mãe está vivendo um momento muito prazeroso com o filho recém-nascido e, de repente, tem que voltar ao trabalho, do qual ela saiu como profissional, mas volta também com um novo papel: o de mãe.”

Déa Januzzi

Um comentário:

  1. Continuo postando parte das matérias que participei como entrevistada para o EM.

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